Tenho sonhado com ele, o inconsciente tem tramas das mais rebuscadas para contar o que ousamos tentar omitir.
No sonho fizemos o Vale do Pati, o desafio de 5 dias de
caminhada. Durante a trilha a tensão que negamos pulsava e o limite dos acordos
estabelecidos com outras pessoas e dores que a pele sabe apareceram em carne e desejo.
Não, não ficaremos juntos, eu falei. Frisei que em outro
momento estive apaixonada, entregue, que investi em passagem e que ele não me quis.
Doeu. Mas muito além do dinheiro perdido, precisei compreender o limite do
afeto e do que ele poderia me oferecer. Assim, ao longo do tempo, dos meses
intensos e largos em que ele me acompanhou a distância, aprendi a transformar o
que sentia em amizade. Mais além do que eu sentia, era importante que ele e eu
fossemos felizes e para mim, era suficiente esse contato afetivo em forma de
amizade.
Assim, estabeleci o limite da nossa troca. Territórios
compartilhados, porém, com distâncias específicas acordadas para o bem comum
(?). Eu estou realmente cansada desse jogo de sedução subjetivo.
Em algum momento no sonho falei para ele parar com o flerte,
esse esporte que costuma exercitar quase sem perceber, com uma roupagem de
simpatia. As vantagens da amizade é conhecer as ferramentas afetivas do outro,
esse recurso eu sei de cor, e comigo não funciona mais.
Dramas em águas,
terra árida,
no campo onírico.
Percebo que a mensagem oculta pode vir como um fechamento de
ciclos, de não permitir, mesmo em sonho ser iludida e levada a um romance
romântico falido. Acredito que a maioria das mulheres da minha geração estão em
uma situação parecida; o cansaço com a falta de definição afetiva ou
comprometimento do que se quer.
Já que estamos falando dos quereres, hoje vi uma postagem do
boy do quilo (piada interna), ele vem em um processo de movimento e mudança,
observo de longe. Me parece que a vontade de construir uma família está latente.
Será algo da idade? As vezes observo famílias e penso que talvez, em algum
momento eu gostaria de construir algo com alguém.
Eu nunca tive vontade de gestar uma vida, estranho escrever “gestar
uma vida” como se eu já tivesse gestado uma morte. Talvez eu viva gestando as
minhas mortes, os ciclos que morrem em mim, e não abra espaço para gestar um outro
ser. Ou simplesmente seja uma escolha ética, política e social de não conceber
uma vida para esse mundo fadado a morrer e pouco tempo. Frase fatalista e um pouco
dramática, mas infelizmente o mundo caminha para a destruição.
Acordei refletindo sobre tudo o que passou, esses limites que
tenho delimitado com força, o que eu não topo mais. Processos de transformação
são difíceis e demoram, como aprender outra língua. Agora por exemplo, em
diversos momentos eu quase escrevi em espanhol, pois a expressão parecia fazer
mais sentido em outra língua, ou por esquecer como construir a frase em
português.